Como vivem as comunidades israelenses vizinhas à guerra na Faixa de Gaza – Blog Folha do Comercio

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Como vivem as comunidades israelenses vizinhas à guerra na Faixa de Gaza

de admin

Vilarejos tentam se recuperar do trauma dos ataques de 7 de outubro em meio a barulhos de tiro, tensão constante e luta pela volta dos reféns

É fácil reconhecer que estamos chegando na fronteira entre Israel e a Faixa de Gaza: os bunkers vão aumentando nas estradas e os estrondos dos caças israelenses ficam mais fortes e reais. O clima de tensão é palpável. E no kibbutz Nir Oz, que fica a 2,5 quilômetros da cidade de Khan Younis, no sul da Faixa de Gaza, essas sensações são ainda mais vivas.

A comunidade foi surpreendida no dia 7 de outubro de 2023, quando terroristas do Hamas, Jihad Islâmica e civis de Gaza invadiram o local, matando ou sequestrando 117 pessoas de uma comunidade de 400.

As cicatrizes daquele dia continuam e Nir Oz segue com poucas modificações desde os ataques do Hamas, com casas queimadas e buracos de tiro em todos os lugares.

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O refeitório, que era o local de convivência entre os moradores do kibbutz e foi transformado em um necrotério após o atentado, continua em outubro de 2023, com o calendário antigo ainda na parede e avisos desatualizados.

Casa destruída pelo grupo terrorista Hamas no Kibbutz Nir Oz, no sul de Israel
Casa destruída pelo grupo terrorista Hamas no Kibbutz Nir Oz, no sul de Israel Foto: Daniel Gateno/Estadão

A argentina-israelense Silvia Cunio é uma das sobreviventes dos ataques do Hamas e mãe de dois sequestrados: os irmãos Ariel e David Cunio. Para ela, o kibbutz viveu um filme de terror no dia 7 de outubro de 2023 que ainda não terminou.

“Os terroristas entraram em Nir Oz e se disfarçaram de soldados. Nós achávamos que eram poucos terroristas e logo o Exército iria chegar, mas fomos percebendo que eram centenas de pessoas que vieram de Gaza para destruir tudo e roubar”, aponta Silvia

Destroços dos ataques do Hamas no Kibbutz Nir Oz, no sul de Israel
Destroços dos ataques do Hamas no Kibbutz Nir Oz, no sul de Israel Foto: Daniel Gateno/Estadão

Sequestro

A reportagem do Estadão visitou a casa de Ariel Cunio, um dos filhos de Silvia que está sequestrado. Como todas as casas de Nir Oz, ninguém mora lá desde os ataques e a sujeira está acumulada no quintal e no sofá que fica na entrada.

A casa não está queimada como muitas da comunidade, mas buracos de tiro estão por todos os lados, bem perto de eletrodomésticos novos que mostram que a casa tinha sido recém adquirida pelos moradores.

Cunio, de 27 anos, estava com sua namorada, Arbel Yehud, de 29, no bunker quando terroristas do Hamas conseguiram abrir o quarto de segurança do local com uma saraivada de tiros e mataram a pequena cachorra do casal. Arbel foi libertada do cativeiro no dia 30 de janeiro, durante o segundo acordo de cessar-fogo entre Israel e Hamas, mas Ariel não.

A argentina-israelense Silvia Cunio é uma sobrevivente dos ataques terroristas do Hamas em Nir Oz e agora luta pela volta de seus filhos, David e Ariel, que são reféns do grupo terrorista
A argentina-israelense Silvia Cunio é uma sobrevivente dos ataques terroristas do Hamas em Nir Oz e agora luta pela volta de seus filhos, David e Ariel, que são reféns do grupo terrorista Foto: Daniel Gateno/Estadão

O irmão mais velho de Ariel, David Cunio, de 34 anos, foi levado para Gaza junto com sua esposa Sharon e suas duas filhas gêmeas de 3 anos. Sharon e as crianças foram libertadas no primeiro acordo de cessar-fogo, em novembro de 2023, mas David continua no território palestino.

14 membros do Kibbutz Nir Oz estão entre os 58 sequestrados que seguem na Faixa de Gaza, mas apenas quatro são considerados vivos, incluindo os irmãos Cunio.

Casa do israelense Oded Lifshitz, que foi assassinado pela Jihad Islâmica, em Nir Oz, Israel
Casa do israelense Oded Lifshitz, que foi assassinado pela Jihad Islâmica, em Nir Oz, Israel Foto: Daniel Gateno/Estadão

Trauma e reconstrução

O foco do Kibbutz Nir Oz está na volta de todos os reféns que seguem em Gaza, mas discussões sobre o futuro já começaram. Em uma assembleia entre todos os habitantes da comunidade, eles decidiram que querem retornar a Nir Oz e devem receber uma grande ajuda financeira do governo israelense para implementar o projeto de reparo.

“Existem muitas famílias que querem retornar ao Kibbutz e quando os reféns voltarem, esta comunidade também vai voltar”, aponta Martin Finkelstein, um argentino-israelense que sobreviveu aos ataques do Hamas.

A opinião é compartilhada por alguns ex-reféns do Hamas que foram libertados, como Gadi Moses, um dos fundadores do Kibbutz, que disse estar pronto para reconstruir a comunidade.

O argentino-israelnse Martin Finkelstein volta todos os dias ao Kibbutz Nir Oz para trabalhar nas plantações do Kibbutz
O argentino-israelnse Martin Finkelstein volta todos os dias ao Kibbutz Nir Oz para trabalhar nas plantações do Kibbutz Foto: Daniel Gateno/Estadão

Mas nem todos querem voltar. Silvia Cunio afirma que ela e sua família não irão retornar a Nir Oz. “Não podemos voltar. O nosso vizinho que morava à esquerda morreu, o da direita também morreu aqui do lado, Meus filhos foram levados e uma pessoa que mora do outro lado da rua também foi sequestrada”.

Enquanto a reconstrução não começa, a comunidade foi realocada para a cidade de Kiryat Gat, que fica há uma hora do kibbutz. Os moradores vivem em apartamentos subsidiados pelo governo de Israel.

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Finkelstein é um dos poucos moradores de Nir Oz que voltam à comunidade todos os dias desde os ataques do Hamas. Ele é um dos agricultores que cuida das plantações de abacates, romãs e batatas. Os cultivos ficam próximos de um observatório onde é possível ver as ruínas de prédios de Khan Yunis, no sul de Gaza.

Ruinas de Khan Yunis, na Faixa de Gaza, podem ser vistas de um observatório no Kibbutz Nir Oz, no sul de Israel
Ruinas de Khan Yunis, na Faixa de Gaza, podem ser vistas de um observatório no Kibbutz Nir Oz, no sul de Israel Foto: Daniel Gateno/Estadão

“O Exército foi liberando aos poucos o nosso espaço de plantação. Antes era tudo uma zona de guerra, mas agora foi tudo liberado e nós convivemos com essa vista e os barulhos do conflito”, diz Finkelstein.

O agricultor aponta que retornar a Nir Oz para trabalhar depois dos ataques do Hamas foi difícil, mas a rotina o ajudou a aceitar a situação. “Ver novamente toda a destruição que eu tinha visto no dia 7 de outubro foi muito complicado, mas trabalhar todos os dias me fez superar o meu pequeno trauma”.

Finkelstein destaca que o kibbutz era o lar de pacifistas que buscavam crianças doentes de Gaza e levavam para hospitais israelenses, como é o caso de Oded Lifshitz, refém assassinado pela Jihad Islâmica que teve seu corpo devolvido a Israel em fevereiro.

Casa da família Bibas, em Nir Oz, Israel; Shiri Bibas e seus filhos Ariel e Kfir foram assassinados, já Yarden sobreviveu
Casa da família Bibas, em Nir Oz, Israel; Shiri Bibas e seus filhos Ariel e Kfir foram assassinados, já Yarden sobreviveu Foto: Daniel Gateno/Estadão

Nir Oz também empregava cidadãos de Gaza, que trabalhavam nos campos agrícolas ao lado do morador argentino-israelense. Para ele, o kibbutz não deve empregar moradores do território palestino depois da guerra.

“Não creio que a paz seja algo possível de se conseguir, mas quero poder continuar vivendo aqui, a 2,5 km deles, com segurança e sem problemas e tenho certeza que tem gente do lado de lá que quer o mesmo”, avalia o argentino-israelense.

Festival Nova

Depois da visita a Nir Oz, a reportagem do Estadão percorreu um trajeto de 14 minutos até o memorial do festival de música eletrônica Nova, onde mais de 380 pessoas foram assassinadas no dia 7 de outubro de 2023, incluindo os brasileiros Ranani Glazer, Bruna Valeanu e Karla Stelzer Mendes.

O local está repleto de cartazes com fotos das vítimas daquele dia e banners dos reféns que seguem na Faixa de Gaza. Uma exposição foi montada para retratar o bar da festa e contar as histórias das vítimas e suas últimas mensagens com entes queridos.

A israelense Mazal Tazazo perdeu seus dois melhores amigos na rave e teve que se fingir de morta ao lado de seus corpos para sobreviver. Ela conta que um terrorista do Hamas chegou a tocar nela, mas desistiu de atirar porque pensou que ela havia morrido.

A israelense Mazal Tazazo se fingiu de morta para sobreviver aos ataques do Hamas no Festival Nova
A israelense Mazal Tazazo se fingiu de morta para sobreviver aos ataques do Hamas no Festival Nova Foto: Daniel Gateno/Estadão

Após ser deixada pelo terrorista, Mazal saiu correndo até a estrada e se escondeu em um carro que havia sido danificado. Duas horas depois ela foi resgatada. “É importante voltar a este lugar e contar a minha história e a história deles, eu me inspiro para viver a vida da mesma forma que meus amigos viveram”, conta a israelense.

Durante a conversa com a sobrevivente, barulhos dos caças israelenses interrompem o diálogo, mas são prontamente ignorados por Mazal, que está acostumada com a rotina da guerra.

Placas e bunkers no memorial relembram todos os visitantes de que eles tem apenas 15 segundos para chegar a um abrigo em caso de foguetes, bem menos tempo do que em Tel-Aviv, onde os moradores tem um minuto e meio.

O brasileiro Ranani Glazer foi homenageado no Memorial do Festival Nova; Glazer foi assassinado pelo Hamas no dia 7 de outubro de 2023
O brasileiro Ranani Glazer foi homenageado no Memorial do Festival Nova; Glazer foi assassinado pelo Hamas no dia 7 de outubro de 2023 Foto: Daniel Gateno/Estadão

A sobrevivente é cética em relação à possibilidade de paz, apontando ser impossível dialogar com o grupo terrorista Hamas. “Com o Hamas no poder é impossível ter paz. Eles não se importam com as pessoas de Gaza e usam todo o dinheiro para comprar armas e construir túneis. Quando eles tiverem um novo governo, podemos falar sobre isso”.

Sderot

Após 20 minutos na rodovia 232 -a chamada rodovia da morte- onde o Hamas alvejou centenas de carros, a reportagem chegou a Sderot, a última parada da visita pela região.

Os 33 mil moradores da cidade foram retirados do local durante a fase mais crítica da guerra, mas já retornaram. Eles convivem com os barulhos da artilharia israelense, foguetes do Hamas e as inúmeras homenagens aos que foram assassinados nas ruas da cidade, a sangue frio, ou na base de polícia de Sderot, que chegou a ser dominada pelos terroristas naquele dia.

Carros destruídos pelo Hamas na chamada rodovia da morte em Israel
Carros destruídos pelo Hamas na chamada rodovia da morte em Israel Foto: Daniel Gateno/Estadão

Na saída da cidade, os olhos se voltam a Gaza, que pode ser vista a olho nu ao longo da estrada. Em meio aos prédios destruídos no território palestino, a reportagem do Estadão enxerga um pequeno helicóptero atirando contra posições de Gaza, mas a visão é bloqueada pela normalidade da rotina, com caminhões que vão e voltam da região todos os dias.

*O repórter viajou a Israel a convite do Consulado de Israel em São Paulo
Por Estadão

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