O anúncio de novas tarifas dos Estados Unidos contra produtos brasileiros acendeu uma luz amarela em Brasília. Não apenas pelo impacto econômico que uma medida desse tamanho pode causar, mas principalmente pelo uso político que esse episódio pode ganhar dentro do Brasil.
Flávio Bolsonaro, aliado declarado de Donald Trump, deve participar de reuniões nos Estados Unidos para tentar barrar o chamado tarifaço. Em tese, qualquer político brasileiro que atue para proteger empresas, empregos e exportações nacionais merece ser ouvido. O problema começa quando essa movimentação deixa de parecer apenas defesa do Brasil e passa a soar como peça de um tabuleiro eleitoral.
A pergunta que precisa ser feita é simples: quem se beneficia politicamente dessa crise?
Caso os Estados Unidos recuem, Flávio poderá ser apresentado como o homem que salvou o Brasil das tarifas. Caso não recuem, o governo Lula será responsabilizado pelos prejuízos. Em ambos os cenários, cria-se uma narrativa conveniente para a direita bolsonarista: transformar uma tensão comercial internacional em ferramenta de campanha presidencial.
O ponto mais grave é que Donald Trump não é apenas presidente dos Estados Unidos. Ele é também aliado político da família Bolsonaro. Essa proximidade torna impossível ignorar a suspeita de que interesses externos possam ser usados para influenciar o ambiente político brasileiro.
O Brasil não pode aceitar que sua economia vire instrumento de pressão eleitoral. Tarifas comerciais devem ser discutidas entre governos, por canais diplomáticos oficiais, com transparência e respeito à soberania nacional. Quando um político de oposição busca protagonismo direto junto a um governo estrangeiro aliado, o debate deixa de ser apenas econômico e passa a ser institucional.
Não se trata de impedir que parlamentares defendam o país no exterior. Trata-se de exigir clareza. O Brasil precisa saber se está diante de uma negociação legítima em favor dos exportadores brasileiros ou de uma encenação política cuidadosamente montada para fabricar um herói eleitoral.
A soberania brasileira não pode ser tratada como figurino de campanha. O interesse nacional deve estar acima de Lula, acima de Bolsonaro, acima de Trump e acima de qualquer projeto de poder.
Se Flávio Bolsonaro realmente quer ajudar o Brasil, deve fazer isso com transparência, colocando o país acima de sua própria ambição política. Mas se o tarifaço virar palco para autopromoção eleitoral, o país terá motivos de sobra para desconfiar.
Porque quando uma potência estrangeira pressiona economicamente o Brasil e, ao mesmo tempo, abre espaço para um aliado político brasileiro aparecer como salvador da pátria, o alerta precisa soar alto.
O Brasil não precisa de salvador fabricado em Washington. Precisa de respeito, soberania e responsabilidade.

