Direita e centro avançam no Nordeste sem confrontar Lula – 22/08/2026 – Política – Blog Folha do Comercio

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Direita e centro avançam no Nordeste sem confrontar Lula – 22/08/2026 – Política

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Com um chapéu de couro e a bandeira de Pernambuco amarrada ao corpo, Raquel Lyra (PSD) fecha os olhos, abaixa a cabeça e faz uma oração. A governadora acabara de chegar à missa em Serrita, no sertão central do estado, sob o olhar de seu principal adversário, João Campos (PSB).

Ao fim da solenidade, percorre a cavalo o acampamento onde estão os vaqueiros e trabalhadores rurais que vieram das cidades vizinhas. Alega pressa para um próximo compromisso, mas pausa para tirar fotos e apertar as mãos de potenciais eleitores para as eleições de outubro.

Em uma tenda improvisada, o comerciante João Marcos de Lavor, 46, fazia um churrasco com sua numerosa família e aguardava o sol quente aplacar para voltar para casa no Cedro. Eleitor do presidente Lula (PT), conta que não vai votar no ex-prefeito do Recife, apoiado pelo petista, mas na governadora.

“Nada contra o João, gente boa, um menino inteligente que está começando, né? Mas a gente deve muito a Raquel, ela arregaçou as mangas e, a gente vê o que ela vem fazendo. Está correndo atrás”, afirma.

A escolha de João Marcos ajuda a explicar uma mudança nas disputas estaduais do Nordeste: Lula continua sendo uma referência para parte expressiva do eleitorado, mas agora enfrenta um direita organizada e partidos de centro que ganham terreno em disputas majoritárias,

Em Pernambuco, João Campos tenta nacionalizar a disputa entre aliados de Lula e Flávio Bolsonaro (PL). Raquel, por sua vez, procura descolá-la da eleição presidencial, preservando pontes com o petismo e atraindo uma parcela do bolsonarismo.

O Nordeste é a região onde se observa maior intenção de votos em Lula, de acordo com o primeiro levantamento do Datafolha após o início oficial da campanha presidencial e o registro das candidaturas.

Na região, 53% afirmam votar no petista, contra 25% em Flávio Bolsonaro. Nas outras regiões, Lula alcança a marca de 33%, menos do que Flávio (36% no Sudeste, 38% no Sul e 35% no Centro-Oeste/Norte).

A separação entre os votos nacional e local é mais clara nas eleições municipais. Em 2024, partidos como União Brasil, PP, PSD e PL elegeram prefeitos de sete das nove capitais nordestinas.

Conservadores também ampliaram sua presença em cidades médias como Vitória da Conquista (BA), Porto Seguro (BA), Campina Grande (PB) e Mossoró (RN).

O avanço chegou, inclusive, a regiões onde Lula venceu com folga dois anos antes. É o caso do Crajubá, acrônimo formado pelas primeiras sílabas de Crato, Juazeiro do Norte e Barbalha, no Cariri cearense, onde o presidente teve votações superiores a 70% em 2022.

Em Juazeiro do Norte, a maioria dos eleitores segue fiel ao petista, mas avalia outras opções para os demais cargos. A cidade é governada pelo prefeito Glêdson Bezerra (Podemos), de perfil conservador e adversário do governador Elmano de Freitas (PT).

Em uma casa ornada com flores e santos nas proximidades da estátua de Padre Cícero, aposentada Maria Aparecida de Melo, 69, diz que, se Lula “se candidatasse 50 vezes, votaria 50 vezes nele”, citando os ganhos das famílias mais pobres durante os governos petistas. Para a disputa estadual, porém, ainda não decidiu seu voto e afirma gostar de Ciro Gomes (PSDB).

O tucano tenta voltar ao governo do Ceará sem apoiar Flávio Bolsonaro, mas com o apoio da direita. Para isso, conta com a base organizada do bolsonarismo, que tem uma militância engajada sob liderança do deputado estadual André Fernandes (PL), derrotado por margem mínima há dois anos quando concorreu à prefeitura de Fortaleza.

“O bolsonarismo criou um alinhamento social e ideológico mais evidente do que o que existia antes. Penso que o Nordeste terá um avanço pontual da direita”, diz o cientista político Cláudio André de Souza, professor da Unilab (Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira).

No Maranhão, Eduardo Braide (PSD), e no Rio Grande do Norte, Allyson Bezerra (União Brasil), lideram as disputas e procuram construir uma identidade própria, buscando votos dos dois lados da polarização.

Na Bahia, a oposição ao PT venceu em sete das dez maiores cidades do estado em 2024, incluindo Salvador. Mas a popularidade de Lula segue intacta, a ponto de aliados do candidato ao governo ACM Neto (União Brasil) apostarem em uma estratégia de voto Lula-Neto. Nas redes, influenciadores dão tração ao bordão “meu combo, minhas regras”.

O governador Jerônimo Rodrigues (PT), que tem melhor desempenho nas pequenas cidades, aposta no movimento contrário: tenta transformar a popularidade de Lula em voto casado.

A estratégia é ancorada no que o cientista político Cláudio André classifica como “lulismo baiano”, uma espécie de atalho de representação política no qual o próprio Lula exerce uma liderança no cenário estadual.

No Rio Grande do Norte, o candidato a governador Cadu Xavier adotou como nome de urna “Cadu de Lula” para disputar a sucessão da governadora petista Fátima Bezerra. O partido ainda concorre aos governos do Piauí e do Maranhão.

João Campos também aposta na força de Lula para vencer em Pernambuco e prevê uma nova vantagem expressiva do presidente na região.

“Acredito que o Nordeste mais uma vez vai dar uma grande votação ao presidente Lula, não só por sua história, mas porque ainda hoje ele representa o sentimento de futuro do Nordeste e da construção de novas oportunidades”, afirma.

Do outro lado do espectro político, a direita ideológica se organiza e busca seu lugar ao sol. Giuseppe Mallmann, 54, professor em um colégio particular de Barbalha (CE), faz parte de um grupo do Cariri que discute pautas conservadoras.

Ele afirma ver contradições na dinâmica do voto da região, que escolhe a esquerda para a Presidência, mas tem marcas conservadoras por ser muito ligada ao cristianismo.

“No aspecto cultural, são conservadores. O próprio Padre Cícero criticava o comunismo. Então, como uma região dita tão devota, tão católica, vota tanto na esquerda?”, questiona Mallmann.

Ele afirma não ver um horizonte imediato de ruptura com o lulismo. Prefere mirar em mudanças no longo prazo e engrossa as fileiras do movimento monárquico do Cariri.

Pragmático, crava seu voto em Flávio Bolsonaro e diz que avalia votar até mesmo em Ciro Gomes para o governo cearense: “Tem que ter alguma mudança.”



Fonte https://redir.folha.com.br/redir/online/poder/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/poder/2026/08/direita-se-organiza-e-centro-ganha-terreno-no-nordeste-sem-confrontar-lula.shtml

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