Há frases que ultrapassam o campo da polêmica e revelam uma forma de enxergar a democracia. Quando um aliado de Flávio Bolsonaro afirma que mulheres “não sabem votar”, a discussão deixa de ser apenas sobre uma opinião infeliz. Passa a ser sobre o respeito ao princípio mais básico da democracia: a igualdade entre os cidadãos.
O voto feminino não foi um presente concedido por ninguém. Foi uma conquista obtida após décadas de luta para que mulheres tivessem exatamente o mesmo peso político que os homens. Questionar, ainda que de forma indireta, a capacidade das mulheres de escolher seus representantes significa desprezar uma conquista histórica que fortaleceu as democracias modernas.
O episódio também cria um desafio político para Flávio Bolsonaro. Em eleições decididas por margens estreitas, declarações desse tipo podem afastar parte do eleitorado feminino, especialmente quando partem de pessoas identificadas como integrantes do mesmo campo político. O impacto eleitoral, naturalmente, dependerá da repercussão do caso e da reação dos envolvidos, mas o desgaste potencial é evidente.
O debate ganha contornos ainda mais preocupantes quando se observa que, nos Estados Unidos, alguns grupos minoritários defendem propostas como o chamado “voto por família”, no qual apenas um voto representaria todo o núcleo familiar. Embora essa ideia não tenha apoio institucional relevante nem faça parte do sistema eleitoral americano, sua existência demonstra que ainda há setores que questionam avanços históricos relacionados à participação política das mulheres.
Democracia não funciona escolhendo quais cidadãos são mais ou menos capazes de votar. Ela parte justamente da premissa oposta: todos possuem igual dignidade política perante as urnas. Quando esse princípio é relativizado, abre-se espaço para discursos que enfraquecem direitos conquistados ao longo de gerações.
O verdadeiro teste para qualquer liderança política não é apenas condenar esse tipo de declaração quando ela gera repercussão negativa, mas demonstrar, por atitudes concretas, que acredita na participação plena e igualitária de homens e mulheres na vida pública. Afinal, uma democracia forte não teme o voto feminino; ela se fortalece com ele.

