Em entrevista recente, ex-presidente declarou usar dispositivo para melhorar o desempenho sexual; tecnologia não possui eficácia comprovada
O ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), de 69 anos, afirmou em entrevista recente ao jornalista Leo Dias que tem utilizado um “chip hormonal” para melhorar o desempenho sexual.
Ao ser questionado sobre sua relação com a esposa, Michelle Bolsonaro, ele respondeu que está “10 de 10”. Em seguida, Dias perguntou se isso estaria relacionado ao uso de tadalafila, medicamento indicado para disfunção erétil. “Tadalafila já era, agora é chip”, rebateu Bolsonaro.
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O tal “chip” é, na verdade, um implante hormonal — um pequeno bastonete de silicone, do tamanho de um palito de fósforo, inserido sob a pele, geralmente nos glúteos ou no abdômen. Esses dispositivos liberam substâncias de forma contínua, sendo mais comuns os hormônios com ação anabolizante, como a testosterona e seus derivados.
Em outubro do ano passado, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) chegou a proibir a venda desse tipo de implante, conhecido como “chip da beleza”. Um mês depois, voltou atrás e autorizou a comercialização com restrições. Ainda assim, a própria agência mantém ressalvas, deixando claro que esses produtos não possuem eficácia comprovada e não estão isentos de riscos.
Embora Bolsonaro não tenha detalhado quais substâncias compõem o implante que utiliza, a declaração acendeu um alerta entre entidades médicas, que há tempos se mobilizam para destacar os potenciais efeitos adversos desses dispositivos. No ano passado, inclusive, 34 entidades enviaram uma carta à Anvisa relatando casos de pacientes — homens e mulheres — que desenvolveram efeitos colaterais, incluindo problemas hepáticos e cardiovasculares. Como mostrou o Estadão, o uso indiscriminado de hormônios como a testosterona gera riscos sérios à saúde e é visto com preocupação pelos especialistas.
“Quando uma figura pública como Bolsonaro faz uma declaração sobre um tratamento médico, há um impacto significativo na percepção da população”, opina o endocrinologista Clayton Macedo, diretor da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM). “Isso pode levar muitos homens a buscarem a mesma solução sem a devida avaliação médica, acreditando se tratar de um tratamento validado, quando na verdade não é”.
Implantes: ação desconhecida
São vários os motivos levantados pelos especialistas que tornam o uso desses dispositivos questionável, a começar por sua ação ser incerta. Na falta de estudos robustos, não é possível ter certeza sobre como ocorre a absorção das substâncias pelo corpo e nem por quanto tempo elas permanecem no organismo — uma investigação de praxe na avaliação da segurança de qualquer medicamento, seja ele administrado por via oral, injetável ou tópica.
“Não sabemos se há um padrão de liberação. Pode ser que em um dia o implante libere uma pequena quantidade e, no outro, uma dose muito maior. Ou seja, estamos falando de uma bomba-relógio”, alerta a ginecologista Maria Celeste Wender, presidente da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo). Outro ponto crítico é que, em caso de efeitos adversos, a remoção do implante pode ser inviável, já que muitos são absorvíveis.
A composição das fórmulas é outra preocupação. Muitos implantes combinam diferentes substâncias em uma única cápsula e, nas redes sociais, não é raro encontrar médicos promovendo prescrições com elementos como ocitocina (usada para induzir o parto e vendida ilegalmente como um suposto “hormônio da felicidade e do amor”), medicamentos para diabetes em pacientes sem a doença e suplementos alimentares.
“Não existe nem recomendação oficial para a dose máxima de hormônios em implantes, o que frequentemente resulta em quantidades superiores ao que a fisiologia humana tolera”, destaca o endocrinologista Alexandre Hohl, diretor do Departamento de Endocrinologia Feminina da SBEM. “O estrago é proporcional: quanto maior a combinação de hormônios, a dose e o tempo de exposição, maior o risco.”
Testosterona: a queridinha da vez
Basta uma busca rápida na internet para encontrar a “solução” para quase qualquer problema: corrigir um suposto desequilíbrio hormonal. No centro desse discurso simplista, a testosterona tem certo protagonismo. “Libido baixa? Testosterona. Cansaço? Testosterona”, dizem os anúncios. Mas a prescrição de testosterona está longe de ser trivial.
O hormônio começa a diminuir naturalmente nos homens após os 40 anos, um processo normal do envelhecimento que, na maioria dos casos, não exige intervenção. No entanto, quando a queda é acentuada e acompanhada de sintomas como fadiga, disfunção erétil e perda de massa óssea, pode indicar hipogonadismo — uma condição que, sim, pode exigir reposição.
O problema é que um exame laboratorial não basta para justificar o uso do hormônio. Resultados falsamente baixos são comuns, tornando necessária a repetição do teste. Além disso, fatores como obesidade, diabetes, uso de certos medicamentos e até estresse podem reduzir a testosterona. “Nesses casos, tratar a causa subjacente pode reverter a queda hormonal sem necessidade de reposição”, explica Hohl.
Segundo Torres, apenas 30% dos casos têm realmente uma relação com a deficiência de testosterona. Fatores como sobrecarga de trabalho, noites maldormidas, problemas familiares e dificuldades financeiras também têm parcela de culpa. “Tudo isso pode desencadear reações psicossomáticas, como falta de libido, cansaço e fadiga. Ou seja, a moda de sempre culpar o declínio hormonal pela falta de vigor físico e sexual está longe de fazer sentido”.
Riscos do uso indiscriminado
Os especialistas concordam que a testosterona pode proporcionar uma sensação de bem-estar, mesmo quando não é usada da melhor forma. Os músculos crescem, a libido aumenta — mas a conta chega, e muitas vezes de forma silenciosa.
Os riscos incluem comprometimento do fígado, aumento do colesterol e da pressão, além de possíveis eventos trombóticos e cardiovasculares sérios, como arritmia, infarto e AVC. “Os estudos mostram que quem usa testosterona de forma indevida tem um risco quase três vezes maior de morte em comparação com aqueles que não usam”, destaca Hohl.
Nesse sentido, o médico destaca que, quando há indicação, a reposição do hormônio deve ser feita apenas de duas formas: por meio de injeções ou gel. “São métodos já estabelecidos e com eficácia comprovada”, assegura o endocrinologista.
Além disso, Macedo destaca a importância de uma avaliação cuidadosa por parte dos pacientes antes de iniciar qualquer tratamento. Muitos profissionais se autodenominam “especialistas em reposição hormonal” sem possuírem a formação adequada ou se identificam como “hormonologistas”, “moduladores” ou “especialistas em anti-aging” — áreas que não são reconhecidas pelo Conselho Federal de Medicina (CFM). Evitar médicos sem especialização registrada no CFM ou que afirmam ser especialistas em áreas não reconhecidas é o passo número um.
“Hormônios não são substâncias inofensivas e estão longe de ser uma solução mágica para questões como energia, virilidade, juventude e performance”, alerta Macedo. “A prescrição exige critério, conhecimento e respaldo científico. Por isso, antes de iniciar qualquer tratamento hormonal, os pacientes devem verificar se o médico possui especialidade em endocrinologia, urologia ou ginecologia, conforme o caso, devidamente registrada no CFM”.
Por Estadão