A proposta, surgida no grupo interministerial que discute medidas, tem oposição dos ministérios da Agricultura e da Indústria; para o setor produtivo, a medida tende a ter impactos limitados
O governo federal cogita reduzir imposto de importação de produtos agropecuários para frear a alta dos preços dos alimentos. No momento, está sob estudo a redução da tarifa de importação de milho e de etanol importado de fora do Mercosul, relataram ao Estadão/Broadcast Agro pessoas que acompanham as tratativas. A proposta surgiu no grupo de trabalho interministerial que discute medidas para enfrentar a alta de preços de alimentos.
A proposta, entretanto, divide o governo. A medida é rejeitada pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) e pelo Ministério da Agricultura. Uma ala, que envolve a Casa Civil e o Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar, defende a proposta como uma das iniciativas possíveis para reduzir o preço das proteínas animais – que utilizam o milho como ração – e da gasolina, que tem até 27% de etanol na mistura. A ideia deste grupo é dar uma resposta imediata de redução dos preços por meio de corte do imposto de importação, em meio à queda de popularidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
A mudança seria temporária, mas ainda sem definição de prazo, de acordo com interlocutores. A proposta circulou entre as reuniões de técnicos dos ministérios que discutem as medidas e ainda não foi levada ao presidente Lula, segundo um integrante que participou de três reuniões ocorridas nesta semana no Palácio do Planalto.
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Hoje, já são isentos de imposto de importação milho e etanol importados de países do Mercosul. Para o milho internalizado de fora do Mercosul, incide a Tarifa Externa Comum (TEC) de 8%. Para o etanol, a tarifa de importação para produto de fora do Mercosul é de 18%.
A redução dos impostos para estes produtos, segundo pessoas a par das discussões, poderia ser feita via inclusão na Lista de Exceções à Tarifa Externa Comum (Letec), o que depende de deliberação da Câmara de Comércio Exterior (Camex). A proposta que está na mesa seria zerar temporariamente ambas tarifas, conforme interlocutores.
Uma das pessoas que acompanham o assunto lembra que o tema fez parte das discussões do grupo desde o início da cruzada do governo contra a inflação em meados de janeiro, inclusive com o milho sendo citado. Na época, o Executivo afirmou que faria um estudo sobre produtos que poderiam ser alvo da redução do imposto de importação.
De acordo com um interlocutor, a medida segue na mesa, mas o sentimento é de que o ímpeto pela medida está “diluindo”. A avaliação é semelhante à da proposta de controlar exportações, que também divide o Executivo: continua no radar, mas não está completamente descartada, apesar de ter reduzido a mobilização.
Parte dos interlocutores considera “inevitável” a redução do imposto de importação de alguns produtos agropecuários. A medida é citada inclusive como alternativa política para acalmar os ânimos internos e tirar da pauta a ideia de limitar exportações de produtos agropecuários. Uma das pessoas que acompanham as discussões avalia que a medida pode não ter reflexo econômico, mas ter efeito político.
Como a medida é vista pelo setor produtivo
Para o setor produtivo, a medida tende a ter impactos limitados. Representantes da indústria de proteína animal afirmam que no momento não há importação de volume significativo de cereal, em meio à entrada da safra de verão no mercado.
Já produtores afirmam que a medida poderia trazer desestímulo à produção. Lideranças do setor produtivo lembram que o Brasil importa milho comumente do Mercosul, o qual entra no País sem imposto de importação, e que tem excedente de produção. Para eles, trazer milho dos Estados Unidos seria menos competitivo que os preços do mercado local.
Já representantes da indústria do etanol refutam a ideia de internalizar o biocombustível com imposto zerado, alegando que a medida prejudicaria sobretudo o setor sucroenergético do Nordeste. Para eles, a medida é desnecessária e não geraria redução de preço final da gasolina ao consumidor.
Nesta quinta-feira, 27, o ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, recebe representantes do setor para alinhar medidas possíveis de serem implementadas. Ele receberá representantes do setor de açúcar e etanol, biodiesel, carnes e supermercados. Não há informação se a medida será discutida nas conversas com os empresários.
Por Estadão