
O episódio recente envolvendo o ministro do Supremo Tribunal Federal André Mendonça, cujo avião apresentou falhas mecânicas, é emblemático. Antes mesmo de qualquer apuração técnica, surgiram versões fantasiosas sugerindo uma tentativa de atentado. Não houve laudo, não houve investigação concluída, não houve evidência — mas houve convicção. E, para muitos, isso basta.
Esse comportamento revela um traço perigoso: quando a identidade política se torna mais importante que os fatos, a lógica é substituída pela crença. Nesse ambiente, não importa o que aconteceu — importa o que reforça a narrativa previamente aceita.
Grupos mais alinhados ao ex-presidente Jair Bolsonaro, por exemplo, têm demonstrado alta propensão a consumir e compartilhar conteúdos que validem sua visão de mundo, ainda que careçam de fundamento. Isso não significa exclusividade ideológica, mas evidencia um padrão: quanto mais radicalizado o eleitor, maior a sua vulnerabilidade à manipulação.
E aqui reside o ponto central. A teoria da conspiração não nasce do nada — ela é construída, disseminada e explorada. Há quem produza esse conteúdo de forma deliberada, sabendo que o medo, a indignação e a sensação de perseguição são ferramentas poderosas de mobilização política. Um eleitor convencido de que “forças ocultas” atuam constantemente contra seus representantes torna-se mais fiel, mais engajado — e, sobretudo, menos questionador.
O problema é que esse ciclo corrói os pilares do debate democrático. Quando tudo pode ser explicado por conspirações, nada mais precisa ser provado. Quando a suspeita substitui a evidência, abre-se espaço para a manipulação em larga escala.
É preciso dizer com clareza: falhas mecânicas acontecem, investigações existem, instituições funcionam. Transformar todo evento em um enredo conspiratório não é apenas irresponsável — é um desserviço ao país.
O Brasil não precisa de mais teorias. Precisa de maturidade. Precisa de cidadãos que desconfiem, sim — mas que também saibam exigir provas. Porque, no fim, a democracia não sobrevive de certezas cegas, mas de dúvidas bem fundamentadas.
E este talvez seja o maior desafio do nosso tempo: resgatar o valor da verdade em um ambiente onde acreditar se tornou mais fácil do que pensar.
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