No teatro político brasileiro, a Polícia Federal deveria ocupar um lugar de honra como instituição de Estado — autônoma, técnica e inabalável diante dos caprichos de quem ocupa o poder. Contudo, a realidade recente revela como governos distintos lidam de maneira diametralmente oposta com sua atuação investigativa.
Durante os mandatos petistas, principalmente nos governos de Lula e Dilma, a Polícia Federal viveu momentos de expressiva liberdade operacional. Foi nesse período que a corporação protagonizou investigações de alto impacto, como a Operação Lava Jato, que expôs esquemas de corrupção envolvendo políticos, empresários e até membros do próprio governo. É uma contradição aparente: o partido que mais foi alvejado por investigações também foi o que mais assegurou meios e liberdade para que a PF atuasse — por convicção democrática ou, talvez, por cálculo político. Ainda assim, a autonomia institucional floresceu.
No governo Bolsonaro, por outro lado, o cenário mudou drasticamente. A interferência política tornou-se explícita. O ex-presidente foi acusado pelo então ministro da Justiça, Sergio Moro, de tentar trocar o comando da PF por conveniências pessoais — o famoso “relatório amigo”. Delegados e superintendentes que ousaram mirar o entorno presidencial foram removidos, pressionados ou silenciados. O aparelhamento da corporação era defendido com a desfaçatez de quem confundia Estado com governo e governo com família.
Em tempos de extremismos e revisionismos, é preciso restabelecer os fatos: a Polícia Federal serviu melhor à democracia quando não foi tratada como linha auxiliar de governo. Os que se dizem defensores da lei devem começar por respeitar quem tem o dever de aplicá-la. Entre os dois modelos testados, fica claro qual fortalece a República — e qual a encurta para proteger interesses pessoais.





