Home Brasil Praia nudista de Florianópolis enfrenta onda de agressões por parte de ‘milícias’ – Diversidade – CartaCapital

Praia nudista de Florianópolis enfrenta onda de agressões por parte de ‘milícias’ – Diversidade – CartaCapital

de admin


Um estudante mineiro e um amigo terminavam uma trilha na popular praia da Galheta, famoso ponto de naturismo de Florianópolis, quando o pior aconteceu. Quatro homens encapuzados, com tacos de madeira nas mãos, os abordaram. Primeiro, um golpe atingiu o amigo do estudante; em seguida, ele próprio foi lançado ao chão.”Só percebi que aquilo era real naquele momento. Saí correndo e me machuquei em meio à vegetação cheia de espinhos”, conta. Diante do estigma, ele preferiu não procurar as autoridades. “É muito difícil dizer à polícia que você estava nu em um local e foi vítima de um ataque”, completa.

Os momentos de pânico relatados pelo rapaz, que pediu para não ser identificado, refletem um padrão que tem se repetido na região. Nos últimos meses, acumulam-se denúncias de violência, incluindo a formação de uma milícia responsável por espancamentos e ameaças contra turistas adeptos do naturismo, mirando sobretudo vítimas da comunidade LGBTQIAP+.

“Apesar da gravidade, muitos casos não são devidamente denunciados pelo medo da exposição, tornando difícil dimensionar o problema”, comenta o bancário Anderson Luz.

O Ministério Público abriu uma investigação. Já a segurança na Galheta, que só pode ser acessada por uma trilha, é responsabilidade compartilhada entre a Polícia Militar e a Guarda Municipal.

Autora do livro Galheta e presidenta da Associação Amigos da Praia da Galheta, a professora e filósofa Miriam Carvalho Alles relembra outros momentos de tensão vividos no território. O primeiro ocorreu na década de 70, quando um casal homoafetivo morreu por afogamento tentando fugir de agressões. Já nos anos 90, o marido de Miriam foi espancado por estar nu, precisando ser levado de helicóptero para um hospital, razão que levou à criação do coletivo.

Em 2016, uma mudança legislativa revogou a lei municipal que permitia o nudismo na Galheta. Com isso, a área perdeu seu status de unidade de conservação, o que abriu caminho para a aquisição de terrenos por particulares e intensificou a especulação imobiliária na região.

“No ano passado, durante uma audiência pública dois homens abordaram a vice-presidenta da nossa organização dizendo que a partir daquele momento ‘ia ser na vara’ e, infelizmente, é o que está acontecendo”, afirma a ativista, ressaltando o ideário naturista como um aliado da preservação ambiental, conectando intimamente ser humano e natureza. “Aqui é para ser um lugar de paz.”

A praia, atualmente em um limbo legal, enfrenta uma disputa ideológica que mescla valores culturais e interesses econômicos. Grupos de orientação mais conservadora estão se mobilizando, destacando a questão da insegurança, mas com uma abordagem que tende a criminalizar os frequentadores da Galheta e estigmatizar a comunidade gay.

“Santa Catarina já experimentou, em décadas passadas, um movimento entre surfistas que tinha como lema ‘fora estranhos/estrangeiros’. O momento atual guarda semelhanças com aquele cenário, agora entrelaçado com elementos de homofobia, xenofobia e conservadorismo”, reflete Danilo Duarte, editor do site Floripa.LGBT, o primeiro veículo a repercutir as recentes agressões a frequentadores.

Um dossiê elaborado por membros do conselho municipal e comunitário, juntamente com outros integrantes, traz à tona imagens e vídeos captados ilegalmente por drones. Estes registros mostram encontros sexuais entre homens em locais isolados da área. O documento menciona o que chama de “tocas motéis” e aponta para sites adultos que direcionam o público para a prática de sexo em espaços públicos, usando a trilha como referência. Recentemente, os autores do dossiê afirmam ter coletado 700 preservativos dispersos pela orla e pela vegetação.

A Galheta continua a ser recomendada como destino pela Federação Brasileira de Naturismo e por diversos guias turísticos, apesar dos recentes debates. As futuras normas de conduta para a área estão sendo discutidas no plano de manejo, com a participação de moradores, técnicos da Floram e representantes da sociedade civil. “Em Tambaba na Paraíba, primeira praia de naturismo do Brasil, há placas, fiscalização, incentivo para questões de turismo e segurança”, compara Duarte.

Grupos pró-naturismo e nudismo têm se manifestado contra a LGBTfobia, o assédio a mulheres, defendendo os princípios do naturismo, que proíbem fotos e atos sexuais em locais públicos. Eles ressaltam a importância da preservação ambiental da Galheta, um legado que ajudou a manter a praia como uma das mais bem conservadas da região, e a cultura de liberdade e respeito mútuo que prevalece desde os anos 70, apesar dos incidentes mencionados.

Em caso de denúncias, o contato com o Ministério Público de Santa Catarina pode ser feito pelo telefone (48) 99188-9825 ou pelo e-mail capital40pjmpsc.mp.br.

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